Leça do Balio celebra a união mais contestada da coroa

Entre apupos e alguns tímidos clamores, o Mosteiro de Leça do Balio assume-se, de novo, protagonista de um dos enredos mais ricos da sua história: o casamento entre o rei D. Fernando e a mui formosa jovem, de origem nobre, D. Leonor de Telles. Na sua 11.ª edição, o evento medieval “Hospitalários no Caminho de Santiago” é  uma aposta ganha da Câmara Municipal de Matosinhos. Todos os anos celebra-se assim, com toda a pompa que a circunstância merece, aquela que é considerada uma das uniões mais contestadas de que há memória na coroa.

Saltimbancos, malabaristas, cavaleiros e tambores levam-nos até ao longínquo ano de 1372, pouco antes de um dos períodos mais tumultuosos vividos em Portugal. Na nobreza e no clero o sentimento de descontentamento é soberano. O povo também não lhes concede louvores. Em todo o reino ecoam as críticas ao monarca e à sua amada. Eles não perdoam, eles não perdoam! Os portugueses não querem tomar como rainha Leonor, mulher que já foi casada!

Apesar das múltiplas vozes de desdém, D. Fernando — pela graça de Deus el-rei de Portugal e do Algarve — faz dos seus ouvidos moucos. Não quer saber, el-rei pura e simplesmente não quer saber. É nos olhos de D. Leonor que encontra o brilho do amor. Descrente das mais que certas consequências, falha o prometido de se casar com a infanta d’Aragão. O reino vizinho longe de tolerar tal afronta apregoa juras de vingança. Mas el-rei não quer saber. Com uma aliança quebrada e a anterior união de Leonor de Telles anulada, a corte deixa Lisboa para trás e atravessa o Douro até chegar ao recatado e religioso pouso de Leça do Balio.

Tocam as gaitas de foles, preparam-se os agricultores e almocreves. Nunca por aqui se viu tal azáfama. Até das terras distantes do Médio Oriente provêm as exóticas bailarinas. Os músicos e trovadores ultimam pormenores, enquanto os valorosos membros da Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém do Hospital aguçam as espadas. Cobras, mochos, falcões e outras aves de rapina são dispostas no recinto para embelezar o mito. Ninguém quer, apesar de tudo, à real festa faltar.

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Envolto em medidas reforçadas de segurança, cavalga triunfante O Belo — cognome atribuído ao monarca — para junto da sua amada. Não lhe bastasse o fillho do seu primeiro matrimónio, ainda dizem as más línguas que Leonor de Telles pernoita com o galego João Fernandes Andeiro. Aumenta a desconfiança e diminui a esperança de um futuro próspero para el reino. Mas mesmo assim el rei, que está cego de amor, avança para D. Leonor. Os dois celebram o primeiro casamento por amor da coroa e geram uma contestação sem fim.

Entre apupos e alguns tímidos clamores, em Leça do Balio faz-se rainha a nobre odiada. Contudo, esta história está longe de estar terminada. Os anos que se seguem são também marcados pela indignação. Com a morte d’el rei instala-se oficialmente a confusão. Proliferam os candidatos ao trono, todavia ainda há quem lute por ela: “—D. Leonor, D. Leonor, senhora de Portugal!”

No entanto, nem a desdenhada monarca e muito menos a sua filha, legítima sucessora à coroa, asseguram a manutenção do reino. Essa, a infanta D. Beatriz, uniu-se a D. João I de Castela. E o povo está farto. O povo quer um rei de sangue e coração lusitano. Lutam agora pelo Mestre de Avis, o bastardo de D. Pedro. Apoiado por um conjunto de nobres, D. João faz-se mesmo el rei deste Portugal. Assim, chega ao fim a Casa de Borgonha e inicia-se uma das épocas mais douradas sob a Dinastia d’Avis.

Os dados históricos apresentados são verídicos e foram inspirados no evento “Hospitalários nos Caminhos de Santiago”, que decorreu entre 8 e 11 de setembro de 2016.

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