Todos os caminhos vão dar a Santiago

Na cultura popular portuguesa é frequente dizer-se: “Todos os caminhos vão dar a Roma.” Esta é uma daquelas expressões que preenchem o nosso imaginário desde tenra idade. Recorremos a este tradicional dito sempre que queremos explicar a alguém que indiferente é o rumo, pois o destino acaba por ser apenas um. No entanto, em vez de nos referirmos exclusivamente à capital transalpina, bem que podíamos conferir o papel principal a outro itinerário: Santiago de Compostela.

Na verdade, todos os caminhos vão também dar a Santiago! Cresci a ouvir falar desta cidade. Contaram-me imensas histórias sobre o seu charme medieval e, sobretudo, relatos da magnificência da Catedral. Porém, devo admitir que nunca despertou em mim grande interesse. Envolta de ignorância, sempre considerei aquele destino como mera romaria. Demasiado religioso e, portanto, incapaz de ao meu ser gerar qualquer gáudio. Qual não foi o meu espanto quando me perdi de amores por Santiago de Compostela?

Entre ruas estreitas e edifícios de outros tempos, a cidade respira História e Cultura em cada esquina. No Parque da Alameda somos invadidos por um primeiro olhar incrédulo sobre a urbe. Rodeia-nos o verde e os flashs dos turistas. Multiplicam-se as pequenas lojas. Lá ao longe avista-se, ainda que não integralmente, o magnânimo monumento onde se crê descansar eternamente o apóstolo —Santiago Maior.

Em toda a parte, mesmo nos sítios mais inusitados, surgem as vieiras. O símbolo ancestral associado às peregrinações de Santiago é, indubitavelmente, o elemento decorativo preponderante. Ninguém fica indiferente. Afinal, trata-se de um autêntico ícone afeto ao paganismo e a posteriori ao cristianismo. Rezam as lendas de outrora que as gentes que povoavam a Galiza — antes de qualquer sinal de Cristo — rumavam a Finisterra usando as tão afamadas vieiras. Na altura, considerava-se este como sendo o ponto mais ocidental do mundo conhecido e, por isso, o fim das terras civilizadas.

O próprio nome da cidade também se atribui a histórias antigas; tão distantes que vão de Santiago até à Via Láctea. O apóstolo pregou na Galiza, contudo ao regressar a Jerusalém foi mandado decapitar pelo rei Herodes. Os restos mortais do apóstolo terão sido depois enviados por mar até à terra que aprendeu a amar. A sepultura foi encontrada muito tempo depois, crê-se que por um camponês, numa noite repleta de constelações. Nasceu, então, Santiago de Compostela.

Mas voltando ao relato da minha primeira visita ao célebre destino. Caminhar do Parque da Alameda à Catedral, é tarefa que pode durar horas. Sim, não estou a brincar! Cada canto e recanto tem uma história para contar. Cada pedra grita por atenção. Cada rua ecoa diferentes sonoridades: gaitas-de-foles, cantares líricos, guitarras e batidas rock. A diversidade é um chamariz para este expoente cultural. Entre mil encantos ergue-se, subitamente, um dos mais incríveis edifícios que já contemplei. Trata-se da Catedral de Santiago. Mesmo em obras, é impossível não nos sentirmos assoberbados por tal grotesca beleza.

Ouvem-se variadíssimos idiomas. Chegam de toda a parte; do Velho Continente à Ásia. Os guias turísticos explicam em alemão, italiano e até japonês o melhor que podem. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Julgo que essa expressão nunca fez tanto sentido para mim. Subo a portentosa escadaria vagarosamente; em ritmo de tartaruga. Boquiaberta e de olhos esbugalhados deixo-me ludibriar pela imponência do edifício. Qual luxúria da visão, cedo me arrependo de ter acreditado que em Santiago não haveria nada para meu bom agrado. No final do dia: Todos os caminhos vão dar a Santiago!

A saga continua brevemente

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