A data que mudou Portugal e está a cair no esquecimento

O dia 5 de Outubro de 1910 é uma daquelas datas, na História de Portugal, que não pode cair no esquecimento. Apesar de distante, esse dia mudou o País e serviu de prenúncio à metamorfose que se iria evidenciar no Velho Continente nos anos seguintes. O mundo de reis e rainhas, príncipes e princesas, entrava agora em declínio. Os ideais republicanos, com raízes na Revolução Liberal Francesa de 1789, começaram pouco e pouco a granjear adeptos, bem como a despertar expetativas junto do povo. No entanto, volvido mais de um século da queda da monarquia, a sociedade portuguesa tende a alhear-se da sua inquestionável importância.

Na verdade, não só o público em geral, mas também a própria classe política parece estar a esquecer-se deste marco centenário. Como explicar a ausência de qualquer discurso por parte de Cavaco Silva, enquanto Chefe do Estado, nas celebrações de 2015? Como explicar o corte no calendário de feriados durante três anos? Embora o 5 de Outubro tenha sido restituído como dia de descanso nacional em 2016, prolifera uma onda generalizada de desapego. No meu entender, deveria haver um maior cultivo pela preponderância histórica desta data. Afinal, como podemos conceber o futuro sem olhar o passado?!

OS ANTECEDENTES QUE IMPULSIONARAM A QUEDA DA MONARQUIA

A proclamação da República no dia 5 de Outubro não foi nenhum ato de surpresa. De facto, é o resultado de um processo moroso e organizado, que foi cultivado em Portugal por partidários republicanos e não só; no enredo assumiram também papel: a maçonaria, monárquicos descontentes, académicos, militares e o povo esfomeado. Apelidado d’O Diplomata, o rei D. Carlos I não teve um reinado fácil, lidando com os ecos nacionais de protesto e ainda além-fronteiras. Sim, é verdade. O filho de Luís I e Maria Pia de Saboia encontrou na Inglaterra, tradicional aliada dos portugueses, uma desenfreada opositora.

Neste contexto, assume particular relevância recordar O Mapa-Cor-de-Rosa, nome atribuído ao trabalho levado a cabo pela Sociedade de Geografia de Lisboa, no qual estavam patentes os desejos expansionistas do reino. O objetivo era representar a pretensão de Portugal exercer soberania sobre os territórios entre Angola e Moçambique, onde se encontram hoje a Zâmbia, Zimbábue e o Malawi. Não obstante a pertinência dos anseios nacionais, os britânicos rapidamente vincaram a sua posição, uma vez que O Mapa-Cor-de-Rosa colidia com os seus interesses em ligar o Cairo (Egito) à Cidade do Cabo (África do Sul).

Ora, como resultado da disputa, os ingleses chefiados pelo Lord Salisbury apresentaram a Portugal um ultimato. Assim, no dia 11 de Janeiro de 1890, o governo ao serviço da rainha Vitória exigiu a retirada imediata das forças lusas, que se encontravam entre as terras de Moçambique e Angola. Quando se espera de D. Carlos um punho forte, o rei falhou e cedeu perante os desígnios britânicos. Este episódio marcou irremediavelmente a imagem da coroa portuguesa. Nos anos subsequentes, por mais medidas que tentasse impregnar, o monarca seguia assombrado por este episódio.

Outros acontecimentos poderiam ser aqui mencionados, contudo nenhum se reveste de tanto protagonismo como o que manchou de sangue o dia 1 de Fevereiro de 1908. Refiro-me, pois claro, ao Regicídio. Naquela altura, regressava a família real de uma estadia de lazer em Vila Viçosa. Todavia, e não obstante os tumultos que se viviam, nada fazia antever tal triste e macabro desfecho. Chegados ao Terreiro do Paço, um dos mais belos espaços da urbe lisboeta, o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro, Luís Filipe, foram mortos a tiro. A rainha D. Amélia e o infante D. Manuel, embora tenham sofrido alguns ferimentos, conseguiram sobreviver.

Logo depois deste incidente, o governo de João Franco demitiu-se, foram libertados os presos políticos republicanos, e ascendeu ao trono um príncipe marcado pelo luto e ainda em tenra idade. D. Manuel, que se tornou el-rei, com cerca de 19 anos não estava preparado para assumir a liderança do reino. O legado deixado por D. Carlos era tudo menos dourado. Era o princípio do fim de mais de 800 anos da coroa.

5 DE OUTUBRO DE 1910 E A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

O profundo estado de deterioração a que chegou a monarquia portuguesa culminou na sua queda. A revolução, que supostamente deveria ter sido mais pacífica, eclodiu na noite de 3 para 4 de Outubro. Contra a família real estavam o exército, a marinha, os partidários republicanos e o povo. Tudo fazia prever um derrubamento fácil. Afinal, a monarquia estava há muito moribunda. Porém, o movimento revolucionário encontrou algumas adversidades. Valeram a audácia dos civis e a imponência das embarcações que rodeavam o Tejo.

Quando espoletaram os primeiros tiros, o jovem rei estava no Palácio das Necessidades a meio de um banquete. Contudo, e apanhado de surpresa, D. Manuel II foi obrigado a retirar-se para Mafra onde aguardou o desfecho dos acontecimentos. No dia seguinte, as notícias não foram as melhores para o monarca que, derrotado, partiu na praia da Ericeira para o seu exílio em Inglaterra. Um exílio sem retorno. O rei nunca mais veria a sua pátria amada; e Portugal não conheceria mais nenhum rei.

Hoje, passados 106 anos, é importante que continuemos a recordar esta data. Retomando uma ideia anterior:

-Como podemos conceber o futuro sem olhar e perceber o nosso passado?!

Entrarei em contacto, assim que possível.

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