Magda Goebbels: A primeira-dama do Terceiro Reich (parte II)

Como vimos no post anterior, antes da ascensão de Magda ao estatuto de “Primeira-Dama do Terceiro Reich“, a sua vida tomou caminhos díspares à ideologia do nacional-socialismo. Torna-se pertinente recordar, sobretudo, o seu intenso caso romântico com  Chaim Vitaly Arlosoroff. Quem diria que a antiga amante de um sionista acabaria os seus dias ao lado dum dos mais fervorosos líderes nazis, que é como quem diz, Joseph Goebbels? De facto, tendo em conta os traços cambiantes da personalidade de Magda, já aqui falados no blogue, a surpresa acaba por ser menor.

Nesta segunda parte do tema “Magda Goebbels: A primeira-dama do Terceiro Reich”, vamos abordar, finalmente, o efervescer da sua paixão pelo nazismo, percorrendo os primeiros tempos de corte com Joseph e de delírios por Hitler; até chegarmos aos últimos e trágicos suspiros da família Goebbels (incluindo os seis filhos do casal), no bunker, em Berlim, antes do final da Segunda Grande Guerra e pouco depois do suicídio do ditador nazi.

O NASCER DA CHAMA DO NACIONAL-SOCIALISMO

Em 1930, ainda sob o nome de Quandt — devido ao seu primeiro casamento com um milionário alemão — , Magda cruzou-se pela primeira vez com as crenças do nacional-socialismo. Então, a força das palavras de Joseph Goebbels, que discursava perante milhares de berlinenses, entusiasmou-a. Em pouco tempo, esforçou-se por frequentar os mesmos círculos que o futuro ministro da Propaganda, assistindo com frequência aos seus comícios. Na altura, aconselharam-na a ler “Mein Kampf” (em português, “A Minha Luta“), indicação que seguiu à risca, chegando mesmo a liderar o grupo feminino regional do partido. 

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O casal Goebbels: à direita Magda e à esquerda Joseph.

A senhora da alta sociedade alemã voluntariou-se para trabalhar no arquivo na sede partidária dos nazis, acabando por cruzar-se assim, uma vez mais, com Joseph Goebbels. Rapidamente, começou a acompanhá-lo a conferências até que viriam a nutrir sentimentos um pelo outro. Apesar disso, e durante algum tempo, Magda ainda manteve de alguma forma a sua ligação a Arlosoroff; o responsável nazi sabia disso e fez questão de respeitar a liberdade da sua amada. Isto porque, o próprio Goebbels em tempos teve um grande amor — Anka Stahlherm — filha de mãe judia. Sim, uma das primeiras paixões do implacável Jospeh Goebbels tinha raízes judaicas; outro facto verídico repleto de ironia. No entanto, a partir do momento em que assumiu o poder ao lado de Hitler, cortou toda e qualquer relação existente com esse passado tão ‘sombrio’ para um político nacional-socialista.

HITLER, O INTERMEDIÁRIO E VERDADEIRO AMOR

O Führer (em português, “líder”) cedo percebeu que a rica e bonita Magda Quandt poderia trazer prestígio ao seu partido. Por isso, serviu como intermediário entre ambos, apoiando e, de certa forma, fomentando o nascer do casal Goebbels, como nos dá conta a seguinte passagem textual (retirada do livro “As Mulheres dos Nazis“, que é fonte preponderante na realização deste artigo):

“Esta mulher poderia desempenhar um papel importante na minha vida, mesmo sem estar casado com ela. Ao meu lado ela poderia representar o oposto aos meus instintos meramente masculinos (…) pena que não seja casada” (Cit. in Sigmund, Anna Maria, “As Mulheres dos Nazis”, p.94). Este excerto tratar-se-á de uma confissão proferida por Hitler a Otto Wagener, que pertenceu ao seu staff, tendo o próprio transmitido a mensagem a Magda. 

A futura “Primeira-Dama do Terceiro Reich” terá entendido as palavras de Adolf Hitler, acima mencionadas, como um sinal de que não poderia ficar a seu lado por motivos políticos. Assim, e tendo o chanceler o papel de anjo cupido, Magda casou-se com Joseph e juntos protagonizaram uma das mais célebres uniões da Alemanha nazi. As diferenças estéticas de ambos chegavam a ser hilariantes; enquanto ela correspondia na perfeição à figura da “mulher alemã”, ele estava muito aquém do ideal germânico alto, louro e de olhos azuis. Na verdade, Goebbels era baixo, tinha um ar um quanto ‘atrofiado’ e fisicamente não fazia tremer ninguém, contudo a sua proximidade a Hitler e o lugar de topo na hierarquia nazi faziam dele um dos homens mais temidos de todo o país.

Apesar de ter sido imensamente badalado no domínio público, o matrimónio de Magda e Joseph conheceu muitos altos e baixos, incluindo diversos casos de adultério por parte do ministro da Propaganda. A este nível, uma das mais conhecidas relações extra-conjugais do governante deu-se com Lida Baroova, uma atriz checa que gozava, na altura, de alguma fama. Consta que este caso quase ditou o fim do casamento dos Goebbels. Todavia, Adolf Hitler jamais poderia consentir a ruptura do ‘casal ideal’ da Alemanha. Assim sendo, terá ordenado o afastamento do seu ministro com Baroova, tendo esta sido enviada para Praga. Afinal, a ideia de poder dos Goebbels não passava de mera utopia, certo? Quer dizer, no fim de contas a última palavra iria pertencer sempre a uma só pessoa: o aterrador Führer.

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Helga Susanne Goebbels, filha mais velha de Magda e Joseph, era considerada a ‘favorita’ de Adolf Hitler. (Fotografia retirada do jornal The Telegraph, todos os direitos reservados.)

De certa forma, o acontecimento supramencionado influenciou negativamente a ligação do casal Goebbels a Hitler, tendo-se verificado um afastamento. Antes disso, o ditador frequentava assiduamente a casa de Magda e Joseph, procurando o conforto do seu lar para se refugiar. Convém também salientar que o Führer era, inclusive, próximo de Helga Susanne Goebbels (a filha mais velha), sendo apontada por muitos como a sua ‘favorita’. Durante algum tempo, a dinâmica relacional mudou claramente. Todavia, o titular da pasta da Propaganda nazi sabia o que fazer para voltar a cair nas ‘boas-graças’ do seu líder e, por isso, impulsionou o crescendo da violência antissemita, encenando a negra noite de 9 de novembro de 1938 – “Noite de Cristal”, que focou a destruição de sinagogas, lojas, habitações e de agressões contra judeus.

ABRIL DE 1945: O FIM DE UMA ERA

Em abril de 1945, os alemães sabiam que a derrota era inevitável. As tropas soviéticas marchavam sem piedade rumo a Berlim, onde ainda permanecia Adolf Hitler. Naquela altura, muitos altos representantes nazis tentaram fugir, ou pelo menos salvar as suas famílias, enviando-as para fora da capital. No entanto, os Goebbels resolveram ser uma exceção à regra e ficaram ao lado do Führer até ao final, literalmente. Embora o plano inicial previsse que Magda deixasse território berlinense e se escondesse com os seis filhos em Schwanenwerder, a família acabou por juntar-se a Hitler no seu bunker.

Berlim estava sob fogo e disparos, mas entregar-se aos seus inimigos era algo impensável para o ditador. Assim sendo, o líder nazi preferiu despedir-se do mundo ao lado da sua companheira, Eva Braun, a ter de enfrentar a vergonha da submissão pelos seus pecados. Sem que a justiça tivesse hipótese de condenar os seus infames crimes, Adolf Hitler suicidou-se a 30 de abril, pouco antes da Alemanha declarar oficialmente a sua rendição. Este ato deixou Magda inconsolável, que se sentiu abandonada pelo seu único e verdadeiro amor, e culminou num trágico fim: o casal decidiu  pôr termo às suas vidas. Porém, em vez de salvar os seus seis filhos (cinco raparigas e um rapaz), Magda administrou cianeto nas crianças, para que estas não acordassem num mundo livre do nacional-socialismo.

O mundo sem o Führer e sem o nacional-socialismo já não merece ser habitado. Foi por isso que eu trouxe as crianças para aqui. Elas são mal-empregadas para a vida que irá continuar e o piedoso Deus vai compreender-me quando chegar a hora a de eu mesma as libertar.” (Excerto da carta escrita por Magda Goebbels ao seu filho mais velho Harald Quandt, fruto do seu primeiro casamento, citado por Sigmund, Anna Maria, no livro “As Mulheres dos Nazis”, p.108-109.

Assim terminou a história da família Goebbels. O amor doentio de Magda por Hitler tornava, na sua cabeça, insuportável a ideia de sobreviver ao seu líder. De tal forma, que até os próprios filhos preferiu sacrificar. Este é um pequeno resumo da biografia de uma das figuras femininas mais proeminentes do universo nazi. De cabelos loiros, e fiel à causa em que acreditava, a jovem que outrora foi próxima do seu padrasto judeu, até isso ignorou. Sim, porque faltava indicar o triste fado de Richard Friedlander, um homem que tanto orgulho tinha na sua “menina”. Já depois de casada com Joseph Goebbels, o empresário judeu acabou por ser enviado para o campo de Buchenwald, onde viria a perecer. Magda queria era saber de Hitler, afinal são dela estas palavras: 

-“Amo o meu marido, mas o meu amor por Hitler é mais forte. Daria a minha vida por ele!”
E assim foi.

 

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