Epifania do preto e do branco

Para uns, metade da vida é passada à procura de um sentido e o resto a descobrir formas de como lá chegar. Para outros, a filosofia do carpe diem impede-os de pensar em algo mais do que o simples passar dos dias. Tanto uma posição como outra se configuram de extremos. Por um lado, ignora-se o desfrutar do presente; pelo outro, desconsidera-se a necessidade de, por vezes, serem precisas metas. Não têm que ser perentoriamente objetivos infalíveis, nem guiar-nos apenas em torno da prossecução dos mesmos. Em sentido inverso, no deleite dos prazeres que o quotidiano tem para oferecer, certamente carece uma quanta comiseração para atentar no amanhã. Entre a indagação incessante pelo futuro e o desfruir exclusivo do momento, não poderá haver uma espécie de linha intermediária? Fictícia, mas que sirva para contrabalançar ambos?

Quer-me parecer que a sociedade nos impõe, por constância e subjugação, duas opções: o preto e o branco. Como senão existisse o cinzento pelo meio. Ou somos demasiado focados e, por isso, tomados como obcecados; ou somos excessivamente despreocupados e, por isso, confundidos como preguiçosos. Na nossa maneira de estar tudo tem que ter um rótulo, uma certeza de um padecer que justifique aquela ‘diferença’. Afinal, há que ser-se preto e branco. Se porventura, não nos identificarmos com nenhum, o que somos? Esta é uma falsa questão, pois a resposta é óbvia: na falta de encontrarmos um ‘lado’ é-nos logo atribuída uma (dis)função.

Em suma, os outros lançam os foguetes, fazem a festa e ainda apanham as canas. Recorrendo a esta alegoria popular, sirva o presente para percebermos que não adianta investir tempo na busca de um sentido, aqueles que nos rodeiam terão sempre uma palavra a acrescentar. Por isso, mais vale deixarmo-nos ir pela corrente, ignorar a dicotomia das cores, e sermos fiéis ao que somos, mesmo que falte lá chegar: ao nosso verdadeiro eu. Seja como, seremos sempre mais genuínos na quimera da procura, do que conformados com a realidade do sistema.

3 thoughts on “Epifania do preto e do branco

  1. Concordo imenso com este texto, Filipa.

    «Mesmo que falte lá chegar»…

    E mesmo se quando lá chegar, perceber-se numa natureza tomada pelo gelo e pela neve.

    Pois, como disseram: o inverno por ali é longo.

    Obrigado por descrever.

    Abraços!

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    1. Obrigada pelo comentário e pelas palavras Pedro!
      Fico satisfeita por saber que há mais gente a pensar assim, ou a padecer do mesmo mal: a falta de enraizamento naquilo que nos é imposto, a constante procura por algo mais, porque aquilo que nos é apresentado não chega, não preenche. Nesta busca incessante pelo nosso próprio ser, descobrimos aspetos que nos agradam, outros mais obscuros que poderão ferir a lógica do “preto e do branco”. Mas mais vale assim mesmo, não é? Não podemos continuar alinhados num rebanho, sem contestar o ‘pastor’. Por isso, prefiro, e como dizes, perder-me nesse gelo e neve, encontrar um inverno longo, pelo menos será uma ambiência verdadeira, desprovida de falsas dicotomias.

      Grata pela participação e interesse no meu blogue,
      Um abraço!

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      1. Cada palavra é como granito. Estou a ler todas os textos da Filipa, ávido das coisas do espírito, como se diz. Vontade de comentar em tudo — mas isso por vezes incomoda. Ao que parece, vivemos entre abandonos, baixezas, doenças, mortes, solidões, bebedeiras, suicídios, teatros, nevões. Isso tanto cá, nesta Floresta Tropical, quanto alhures, do outro lado do oceano marítimo. Mas cada doença superada é uma narrativa fascinante, pois não? A neve já encosta para os joelhos. E, sim, pelo menos se mostra uma ambiência um bocadinho mais verdadeira.

        

Abraços que embarcam desde o Brasil — que não cheguem tão tarde.

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