Humanos que preferem ser animais

Os dois acordaram lado a lado, tinham passado a noite enrolados como um casal de apaixonados, contrariando os seus anseios de animais. Não se recordavam muito bem do sítio onde se tinham conhecido, mas preferiam ter ficado aquém daquelas quatro paredes. Tudo parecia correr de feição. Estavam conectados pelo desapreço às trivialidades humanas. Mas algo derrubou as suas expetativas. No bar da moda, lá da povoação, estava cada um no seu canto a afogar as mágoas. Um shot, dois, três… Faziam-no em separado até que os seus olhares se entre-cruzaram, naquele espaço repleto de gente, mas onde se destacava a mútua solidão. O homem tomou a iniciativa e abordou a mulher. Não foram necessários muitos minutos de conversa para que começassem a beber em conjunto.

Como na selva, dispensaram a partilha de nomes, dos pormenores da vida, apenas reconheciam nos seus rostos o desespero comum, algo que carecia nos demais indivíduos envolventes – loucos a dançar os novos hits comerciais do momento. É impressionante como naquele desfilar de perus e peruas empertigados, aquelas duas almas intrigadas foram-se encontrar. Beberam mais uns quantos shots, e depois apostaram no whisky, esgotaram o manancial da oferta do bar; experimentaram todos os tipos de bebida. Estavam bêbados como nunca. Perdidos que estavam, partiram para o próximo copo como se fosse o último, mas sem trocarem uma única palavra.

Que estranho acasalamento aqueles dois estavam a protelar, não? Nem um sorriso, nada de nada, a não ser uma troca infinita de olhares. Em cada um reviam um mar negro de aflição, sabiam que estavam à deriva, alienados da realidade aborrecida e hipócrita dos humanos. Naquele irrisório ambiente, mas simultaneamente arrebatador, estavam seguros de ter encontrado alguém que padecia dos mesmos males. Por isso, dispensavam as banalidades dos ditames da sociedade, deixando-se embriagar pelo álcool mas, sobretudo, pela essência animal.

Ficaram até à última batida, sem que tivessem dado um único passo de dança. Ninguém notou a sua presença, apenas quando os empregados quiseram fechar o bar e os expulsaram; eles que fossem continuar aquele baile de (des)encanto para outro lado. Na rua, assombrados por aquele olhar avassalador que não cessava, deixaram-se finalmente levar pelo apelo mundano do prazer. Envoltos por um clima selvático, sem troca de beijos ou carícias – eles não eram assim –, enredaram-se sob o corpo alheio. Fizeram-no como animais. Não queriam praticar o ato enfadado do suposto amor humano. Desejavam tocar e embrenhar-se loucamente. Numa imagem digna da condena da Igreja, cometeram contudo um erro fatal…

Chegados ao quarto, protegidos da chuva e do frio, sabiam que o fulgor havia passado. Não eram mais animais puros e despreocupados; somente um homem e uma mulher, que se embebedaram, fizeram sexo e adormeceram. No dia a seguir, a ressaca de terem perdido a reciprocidade do vazio do olhar era maior do que aquela provocada pelo álcool. Teriam imaginado tudo? Ficaram horas incessantes em busca do negrume afrodisíaco, do grotesco desejo animalesco, mas só encontraram desdém. Seriam como toda a gente?

2 thoughts on “Humanos que preferem ser animais

Entrarei em contacto, assim que possível.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.