Diário de um alter-ego insano

outono de 1919

O fim do verão e o início da nova estação já se fazem sentir. As folhas estão a mudar de cor e começam a cair no chão. As primeiras rajadas de vento também deixam as suas mossas, mas o principal mensageiro da mudança é o frio: os agasalhos revelam-se insuficientes para enfrentar as típicas baixas temperaturas bávaras, que não tarda serão ainda mais difíceis de suportar. Pouco motivado, saio da cama, visto algumas das minhas melhores indumentárias, ou pelo menos o que resta delas, e preparo o café matinal; sou um daqueles viciados que não aguenta a dureza do dia-a-dia sem um bocado de cafeína. O outono nunca foi a minha época favorita, mas este ano, em particular, está-me a deixar mais deprimido do que nunca, deve ser para me coadunar com o espírito geral de desalento que envolve a comunidade.

Nem me dou ao trabalho de ligar a rádio. Depois da ‘mutilação’ que este país onde habito sofreu com o Tratado de Versalhes, o desespero passou a ser a palavra de ordem. Como é que vão os alemães pagar o débito de 260 mil milhões de marcos de ouro? Contudo, imagino que a sua maior mágoa seja o orgulho ferido… Para além de se terem vergado, com a desistência do Kaiser, viram o seu território dizimado. Dentro de portas, e com o maior dos cuidados, sussurro para os meus botões que pouco me importa este cenário de vergonha nacional, ou lá o que lhe queiram chamar. – Pátria? Eu sou um daqueles loucos que deambula pelo mundo, sem sinal de apego à ideia de uma nação. E prefiro manter-me assim! Estes tontos viram-se forçados a abraçar um conflito em nome de patriotismos bacocos e os que conseguiram sobreviver voltaram para casa cabisbaixos. Para quê? Deram ao mundo uma epifania de inferno puro na Terra, mas porquê?

Por agora deixo os meus pensamentos obscuros escondidos na gaveta, onde costumo registar todos os secretos devaneios, e volto à ‘vida comum’. Felizmente, tenho a sorte de ter uma farsa bem montada que me permite permanecer à tona, escapei à Grande Guerra e, por consequência, mantenho-me aquém de dissabores. Se na rua me perguntam de onde sou, lá tenho que afirmar convictamente: – Da Baviera! Os documentos falsos, ou não, que trago comigo corroboram essa teoria, por isso, sigo tranquilo. Chamam-me o inadaptado das Letras, porque já nos tempos do Império era conhecido pelos meus poemas. Granjeei uma fortuna significativa e, com efeito, vou aguentando este contexto de privação. Chega de falar de mim… Tenho uns quantos compromissos com editores. Saio de casa apressadamente e quase ia caindo, ao tropeçar num rato.

Com a pressão das horas a apertar, ignorei, claro, esse facto, mesmo que odeie esses nojentos roedores. Não sei o que se passa, mas voltei a cruzar-me com mais uns quantos dessa espécie mortos no caminho para a reunião. Estão por todo lado. Parece que enunciam a Peste, ou qualquer Apocalipse, será? Ninguém parece muito transtornado com este contexto, talvez porque já se tenham habituado à precariedade das suas vidas, coitados. No entanto, os bizarros incidentes desta manhã deixaram-me um quanto ansioso; que mau dia para ser apanhado por este nervosismo súbito. Quando se vai negociar com editores temos que ir cientes e, como aprendi nas tavernas da zona, de ‘pulso firme’. Ratos, ratos e ratos. Aquela nauseabunda imagem ficou-me entranhada na cabeça. Preciso de espairecer um pouco.

[aplausos, ovações e berros ecoam perto] … Donde vem este barulho? Cambada de arruaceiros é o que são estes bávaros nacionalistas, em que se meteram agora? A agitação é demasiado ensurdecedora para seguir caminho na direção oposta. Seja como for, hoje não me encontro no meu melhor para encontros editoriais, mais vale ir aqui à cervejaria.

Copos ao alto, uma pequena multidão de dezenas em pé, no meio está um homem de aspecto estranho; parece ser o centro das atenções; ao fundo consigo identificar o Eckart (poeta e dramaturgo) – um convencido e pomposo de primeira –, tem a mania que é da elite e uns ideais demasiado absurdos para ser levado a sério. Há uns anos já me debati com esta figura. É um bon vivant e, por norma, quando bebe em demasia tende a dar azo à verborreia que lhe vai na cabeça. Dispara contra tudo e todos: os estrangeiros, os judeus e o seu alvo de eleição, ou seja, eu. Gosto de evitar climas tensos, noutra ocasião ter-me-ia ido embora ao vê-lo, mas a curiosidade é um mal de que padecem todos os escritores, por isso sento-me a um canto para observar aquela concentração.

[peço uma cerveja e fico sozinho o mais afastado possível, todavia não o suficiente para me impedir de atentar naquela espécie de comício improvisado] … O homem de aspecto estranho salta para cima das mesas à sua frente e, como que a pedido do plateau, irrompe num efusivo discurso. Gesticula para aqui, eleva a voz, tem um grande poder de retórica. Não me sinto atraído pelas suas palavras, diria antes intrigado. Sinto-me mal disposto, com o álcool à mistura, os ratos mortos vieram-me outra vez à cabeça. O estranho continua embalado pelos aplausos e incrementa os níveis de paixão e veneno. As suas palavras saem disparadas como veneno de ratos. Tenho que deixar este sítio e voltar para casa:

– Sabia que era um mau dia para deixar a minha cama. Acho que estou a ficar doente, estarei a morrer?

Entrarei em contacto, assim que possível.

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