Zeca Afonso: Recordar a voz da utopia e da liberdade

«Grândola, vila morena/ Terra da fraternidade/ O povo é quem mais ordena/ Dentro de ti, ó cidade… », volvidos 46 anos, estes versos ainda ecoam no imaginário de cada um; seja por se tratar do símbolo musical mais pungente do 25 de Abril, ou por entretanto se ter assumido como um grito internacional em prol da liberdade. Independentemente do significado que se lhe queira atribuir, “Grândola Vila Morena” inscreveu o nome de Zeca Afonso para a posteridade. Mas, de facto, o cantautor, por muitos considerado o melhor entre a cultura lusitana, nem precisaria de uma Revolução dos Cravos para merecer um lugar na História.

Seja como for, todos conhecemos (ou deveríamos) a importância de “Grândola Vila Morena”, que em 25 de Abril de 1974 emitiu o sinal de ação para o Movimento das Forças Armadas; algumas horas depois caía o Estado Novo e o País livrava-se de mais de 40 anos de ditadura. Zeca Afonso transformou-se, assim, na voz da Revolução; a própria Amália Rodrigues quis seguir-lhe os passos e cantar de peito cheio – como só a diva do fado sabia – os versos da liberdade. 

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Zeca Afonso @ D.R.

Desde então, a música é o hino de um povo, que não se deixa esmorecer; em 2012, “Grândola Vila Morena” entoou, uma vez mais, como forma de protesto, desta vez contra as medidas de austeridade do Governo de Pedro Passos Coelho; mais tarde, ‘nuestros hermanos’ seguiram os mesmos passos e fizeram ouvir “o povo é quem mais ordena” em plena capital, Madrid, contra Mariano Rajoy. Imagine-se que até Berlín – célebre personagem de La Casa de Papel, interpretado por Pedro Alonso – não ficou indiferente à magia de Zeca e cantou: «Pela liberdade, sempre!» [ver vídeo aqui].

Se ainda haviam dúvidas sobre o poderio desta canção, agora já se dissiparam, certo? Esperemos que sim, de qualquer modo, o objetivo não é levar o leitor a ouvir (vezes sem fim) este tema mas, sobretudo, a recordar Zeca Afonso e a (re)descobrir o seu génio, vida e obra. Como é que tudo começou?

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos – ou simplesmente Zeca Afonso, como viria a ser eternizado – nasceu a 2 de agosto de 1929, em Aveiro. Em miúdo passou algumas temporadas em Angola, onde o seu pai excerceu a função de delegado do Procurador Geral da República. Por motivos de saúde, o pequeno Zeca dividiu o seu tempo entre África, que aprendeu a amar e a respeitar, e Portugal. As suas raízes familiares não representam propriamente o ‘proletariado’. Contudo, quando se fez homem, Zeca cantou e defendeu, como poucos, o povo – antes deste ir ‘de carrinho’, como viria a cantar na década de 80, no álbum “Como Se Fora Seu Filho”, um disco paradoxo, dividido entre a utopia e o desalento da realidade política:

«O país vai de carrinho/ Vai de carrinho o país/ Os falcões das avenidas/ São os meninos nazis/ (…) Se o Adolfo pudesse/ Ressuscitar em Abril/ Dançava a dança macabra/ Com os meninos nazis…».

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Zeca Afonso @ D.R.

Não obstante o facto dos versos acima datarem dos anos 80, não pense o leitor que o espírito de instigador nato de Zeca se resumiu a “Grândola Vila Morena” e ao pós-25 de Abril, nem por sombras. De facto, a alma combativa do cantor contra a opressão do Estado Novo trouxe-lhe vários problemas junto da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado): canções proibidas pelo ‘lápis azul’ da censura e até prisão, sem esquecer ainda a sua expulsão do ensino oficial (quando era professor). O músico, licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, na sua ‘amada’ Coimbra, não teve assim um caminho fácil e chegou, inclusive, a ser tratado pelos meios mediáticos como Esof Osnofa, o anagrama do seu nome, com o intuito de se evitar as amarguras da censura.

Já com um percurso musical assinalável, e vários discos editados, conta-se que Zeca Afonso cantou pela primeira vez em público, perante mais de 3000 pessoas, “Grândola, Vila Morena”, no dia 10 de maio de 1972, em Santiago de Compostela, na Galiza – a sua ‘pátria espiritual’, como viria a afirmar. Ironia ou homenagem do destino, dependendo de como lhe queiram chamar, o cenário daquela atuação está perto de um lugar que, hoje se chama, Parque José Afonso. Uma história de amor que encontra ainda reflexos na canção popular galega “Achégate a mim Maruxa”, que Zeca incluiu no disco “Fura, Fura”, de 1979.

Tal como se pode perceber, Zeca Afonso era um homem de paixões fortes, como de resto é típico da alma mater de qualquer português, cantando pela liberdade, por África e Coimbra, pela Galiza, sem esquecer o povo e a igualdade. Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa da qual já padecia há alguns anos, Zeca morreu na madrugada de 23 de fevereiro de 1987, em Setúbal, com 57 anos. Morreu o homem, mas permaneceu a obra e o espírito do cantor das utopias:

«Cidade, sem muros nem ameias/ Gente igual por dentro/ Gente igual por fora/ (…) Homem que olhas nos olhos/ Que não negas/ O sorriso, a palavra forte e justa…».

[Texto de Filipa Santos Sousa, autora do blogue, originalmente publicado na Revista RUA].

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