Sanatório de Valongo: A beleza sombria de um lugar em ruínas

Castelos, palácios e museus atraem muitos turistas, mas os edifícios abandonados e repletos de lendas também. Um dos casos de ‘dark tourism’ mais conhecidos em Portugal situa-se no Monte de Santa Justa, na freguesia de São Pedro da Cova, no concelho de Gondomar. Descrito desta forma não é evidente o mote do artigo, contudo ao mencionar Sanatório de Valongo – como ficou comummente conhecido o Sanatório de Mont’alto – o caso muda certamente de figura.

Apesar de o edifício ter sido criado para o tratamento de doentes com tuberculose – doença que fustigou o País entre os finais do séc. XIX e meados do séc. XX –, hoje em dia é associado ao mundo do ‘paranormal’. Em diversos artigos e vídeos publicados online há relatos de encontros sobrenaturais com vultos e ‘alegados fantasmas’; ou menções a ruídos estranhos e ritos satânicos. Verdade ou mentira, quem sabe? Muitas histórias podem ser infundadas, ou inflacionadas pelos adeptos do universo “The Shinning”, porém algo não se pode negar: o lugar tem uma aura um quanto sombria.

Mitos à parte, qual é a verdadeira história do Sanatório de Valongo?

No início do séc. XX, e numa altura em que o Covid 19 estava longe de ser uma realidade, a tuberculose era uma das enfermidades com uma maior taxa de mortalidade em Portugal e na Europa. Este facto associado aos elevados índices de contágio impulsionou a criação de vários sítios específicos e isolados para o tratamento dos doentes tuberculosos. De norte a sul, as construções sucederam-se, mas no caso do Sanatório de Valongo quase se poderá dizer que chegou um pouco tarde demais. Porquê? Ora, o edifício começou a ganhar forma nos anos 30, sob a responsabilidade do arquiteto Júlio de Brito (seguidor do célebre Marques da Silva), contudo a obra só ficaria concluída em 1958.

Desde o ano da inauguração até ao encerramento do Sanatório de Valongo, em 1975, passou-se pouco tempo, sobretudo tendo em conta a dimensão da empreitada. Só para se ter uma ideia, o edifício está inserido numa área de 88.000 metros quadrados, o equivalente a cerca de nove campos de futebol, possuía cinco pisos e um recuado, bem como dezenas de camas para internamento. Para além da imensidão do Sanatório, a área envolvente abrangia uma escola, uma lavandaria, uma igreja com acesso interior direto, uma capela e um reservatório de água. Conta-se que alegadamente o Sanatório terá acolhido mais doentes do que aqueles que poderia receber, daí os relatos de mortes em condições dantescas.

Porquê um Sanatório no Monte de Santa Justa?

A escolha do Monte de Santa Justa para a edificação do Sanatório de Valongo é tudo menos obra do mero acaso. Situado numa posição estratégica, a poucos quilómetros da cidade do Porto, a proximidade dos centros urbanos foi definitivamente um dos motivos. Ao mesmo tempo, o isolamento geográfico e a altitude de 367 metros seriam outras das razões benfazejas para a instalação do sanatório naquele local.

A grosso modo, acreditava-se que o ar puro traria benefícios para os doentes, dado que a tuberculose é uma doença que afeta sobretudo os pulmões. Todavia, e por altura da queda do Estado Novo, os avanços nos tratamentos sanitários deixaram de justificar a existência de locais como os sanatórios. Desde 1975 e até aos dias de hoje, o Sanatório de Valongo perdeu utilidade, transformando-se num lugar devoluto, onde o cinza do passado contrasta com os tons coloridos dos grafitis. Envolto em especulações quanto ao seu futuro, certo é que o edifício abraça cada vez mais a ruína e apesar de ter servido de palco para atividades de paintball, videoclips ou sessões fotográficas, atualmente parece apenas e só digno de um filme de terror.

No entanto, e como a beleza das coisas depende da perspetiva de quem as contempla, é possível afirmar que no meio daquele estado de desgraça destaca-se um je ne sais quois de fascínio e esplendor. Quem teve a coragem de subir os vários andares do Sanatório de Valongo saberá certamente do que falo; aquela vista infinita sobre o mar tem a capacidade de nos fazer sonhar.

Fontes:

Histórias de Bolso

JPN – JornalismoPortoNet

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