Mafalda de Sabóia: A princesa italiana que morreu num campo de concentração

Nascida a 19 de novembro de 1902, no seio da família real italiana – a antiga e poderosa Casa de Sabóia –, a princesa Mafalda era a segunda filha do rei Victor Emmanuel III e da rainha Helena de Montenegro. Como membro da realeza, Mafalda cresceu rodeada de luxos, pelo que nada fazia antever o seu trágico fim, mas já lá iremos.

Durante a sua juventude, a rainha Helena cultivou em Mafalda o amor pela música e pelas artes em geral, incentivando-a ainda a dedicar-se à Igreja Católica e a ações de solidariedade. De facto, em plena I Grande Guerra (1914-1918), a jovem princesa acompanhou várias vezes a sua mãe aos hospitais militares italianos, onde prestava certos cuidados básicos, mas sobretudo procurava incutir alguma moral aos combatentes do seu país.

«Era alegre e gentil, inteligente e educada. Estava sempre dedicada aos outros

Cristina Siccardi, autora da biografia “Mafalda di Savoia” (Paoline Editoriale Libri, 1999).

A união da Casa de Sabóia com a Casa de Hesse

No filme “Mafaldia di Savoia – Il coraggio di una principessa” (em português, “Mafalda de Sabóia – A coragem de uma princesa), datado de 2006, a princesa surge retratada como uma jovem de convicções fortes que terá inclusive confrontado o seu pai, o rei Victor Emmanuel, para conseguir assegurar o seu matrimónio com Phillip de Hesse-Cassel.

De origem alemã, o príncipe Phillip de Hesse era sobrinho do último kaiser (em português, imperador), Guilherme I (que abdicou do trono após o fracasso das sua tropas durante a I Grande Guerra). O facto de o aristrocrata alemão não ser católico desagradava aos monarcas italianos, contudo a insistência de Mafalda terá levado os seus pais a ceder e a autorizar a união.

No dia 23 de setembro de 1925, a princesa Mafalda de Sabóia casou-se finalmente com o seu amado, o príncipe Phillip de Hesse-Cassel, no Castelo de Racconigi, nos arredores de Turim, em Piemonte (Itália). Do matrimónio nasceram quatro filhos: Moritz, Heinrinch, Otoo e Isabel.

Da mudança para a Alemanha à perseguição nazi

Nos anos 20, e apesar de o rei Victor Emmanuel ainda assumir algum simbolismo, a verdadeira fonte do poder em Itália tinha outro nome – Benito Mussolini, nada mais nada menos do que ‘Il Duce’, que viria a servir de inspiração a outros tantos fascistas pela Europa fora, incluindo o próprio Adolf Hitler. Por esta altura, o príncipe Phillip de Hesse era um confesso aficionado das políticas de Mussolini, pelo que quando Hitler assumiu o poder alistou-se ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, vulgo nazismo.

Em 1934, o marido da princesa foi nomeado governador da província de Hesse-Nassau, na antiga Prússia. Assim sendo, Mafalda e os seus quatro filhos mudaram-se para a Alemanha. No entanto, as políticas nazis nunca agradaram à princesa, facto que chamou a atenção do séquito de terror do ‘Führer’, que desde 1939 seguiam todos os passos da filha do rei de Itália. Enquanto os transalpinos se mantiveram como aliados da Alemanha nazi as inconveniências de Mafalda foram sendo perdoadas, contudo tudo mudou a partir do momento em que Victor Emmanuel decidiu assinar, em 1943, um armistício com os Aliados, em plena II Grande Guerra. Como consequência, deu-se início à ‘Operação Abeba’ – cujo objetivo era capturar todos os membros da família real de Itália.

«A maior cadela [grösste Rabenaa] de toda a casa real italiana».

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do III Reich, a respeito de Mafalda de Savóia

Em 1943, a princesa Mafalda estava na Bulgária para apoiar a sua irmã, a czarina Joana, que tinha perdido o seu marido, o rei Bóris III. Não obstante o facto de ter recebido um alerta para o caos em que estava mergulhado o seu país, Mafalda decidiu voltar a Itália, pensando que o seu apelido iria garantir a sua segurança. Mas, não poderia estar mais enganada.

Prisão e morte em Buchenwald

Ao regressar a Roma, Malfalda de Sabóia foi enganada pelos nazis, que a convocaram à embaixada alemã, com o pretexto de que se iria encontrar com o seu marido – o príncipe Phillip de Hesse. Todavia, a princesa desconhecia que o seu esposo era prisioneiro dos nazis, em Flossenbürg, por ter discordado das políticas nefastas nazis. Deste modo, e com os seus filhos em segurança no Vaticano, Mafalda resolveu arriscar e foi ao encontro dos nazis, em Roma, sem saber que estaria a assinar a sua própria sentença de morte.

Em 22 de setembro de 1943, Mafalda de Sabóia deixou Itália para nunca mais voltar, tendo sido levada pela Gestapo para o campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha.

«[A princesa] foi deportada para Buchenwald e ficou encarcerada na barraca 15, sob o nome falso de Frau von Weber. Além disso, estava proibida de revelar a sua identidade e para ridicularizá-la ainda mais, os nazis chamavam-lhe de Frau Abeba.»

Cristina Siccardi, autora da biografia “Mafalda di Savoia” (Paoline Editoriale Libri, 1999).

No dia 24 de agosto, os Aliados bombardearam uma fábrica de munições, localizada em Buchenwald, vitimando mortalmente cerca de 400 prisioneiros. Como resultado deste incidente, Mafalda ficou gravemente ferida no braço. Durante quatro dias, e apesar dos pedidos incessantes dos prisioneiros – que, entretanto, já haviam descoberto verdadeira identidade da princesa – os nazis adiaram deliberadamente a operação; até que uma intervenção relâmpago, e sem o mínimo de condições, levou à amputação do braço e consequentemente à morte de Mafalda de Sabóia.

Despida e enterrada numa vala comum, os nazis tentaram apagar da História o nome da corajosa princesa italiana, ao referenciar apenas: “262, uma mulher desconhecida”. No entanto, não foram bem-sucedidos neste covarde intento.

«Poucos meses depois, sete trabalhadores italianos, veteranos dos campos de concentração nazis, encontraram o caixão da princesa mártir e afixaram uma placa com o seu nome

Cristina Siccardi, autora da biografia “Mafalda di Savoia” (Paoline Editoriale Libri, 1999).

A família real italiana só teve conhecimento da trágica morte de Mafalda, em 1945, após a rendição dos alemães, na II Grande Guerra. Desde então, os seus restos mortais jazem no mausoléu dos Landgraves de Hesse. Embora já tenham passado mais de 70 anos desde a sua morte, Mafalda de Savóia ainda hoje é carinhosamente recordada pelos transalpinos.

«Italianos, estou a morrer, contudo não quero que se lembrem de mim como uma princesa, mas sim como vossa irmã italiana

Mafalda de Sabóia e de Hesse, no leito da sua morte.

Uma história de coragem, que deve ser recordada para a posteridade!

FONTES:

Barger, B. (2017, 17 de março). https://www.historyofroyalwomen.com/italy/royal-victim-buchenwald-princess-mafalda-savoy2/

Centamori, V. (2020, 15 de julho). https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/mafalda-de-saboia-a-desgraca-de-uma-princesa-no-campo-de-concentracao.phtml

Montero, S. (2015, 28 de agosto). https://www.elmundo.es/yodona/2015/08/28/55db1834ca4741a04f8b4582.html

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